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Resenha – Vida após a morte

Atualizado: 20 de jan.


Damien Echols - Vida Após a Morte - Editora Intrinseca

Este livro conta a história de Damien Echols, um jovem de 18 anos que foi julgado e condenado a morte, acusado de ser o líder de uma seita satânica formada por adolescentes fãs de Heavy Metal. Segundo seus acusadores esses jovens assassinaram cruelmente três crianças de 8 anos na pequena cidade de West Memphis. Damien Echols passou 18 anos no corredor da morte esperando por sua execução. Dois amigos seus pegaram prisão perpétua por terem sido cúmplices no suposto ritual satânico perpetrado por Echols causando a morte dos três garotos. Enquanto vizinhos e familiares das vítimas acusavam os adolescentes roqueiros, outros apontavam graves erros nas investigações e expunham a falta de provas materiais que ligassem os acusados ao crime. A história do “Trio de West Memphis”, como ficaram conhecidos na imprensa, tomou os noticiários e se espalhou mundo afora.


Os trê garotos mortos em West Memphis em 1993

Há elementos de sobra nessa história que sinalizam para uma verdadeira “caça às bruxas”. Começando pela investigação policial; os investigadores não preservaram o local de crime. Mexeram nos corpos antes da chegada dos legistas. Segundo o advogado de um dos acusados, a polícia:


“literalmente pisoteou o local, especialmente no leito do riacho onde estavam os corpos”.
Dan Stidham

Os policiais armazenaram os materiais encontrados na cena do crime de forma errada, o que deteriorou quase tudo. O depoimento no qual os policiais conseguiram a confissão de Jessie Misskelley, foi considerado coercitivo, além de ter sido feito sem a presença de um advogado ou mesmo alguém da família. Não foi encontrado nenhum traço de DNA dos acusados no local do crime, no entanto, foi encontrado DNA em um cabelo preso no cadarço do tênis de um dos garotos mortos. Era de Terry Hobbs, o padrasto de Stevie Branch uma das vítimas. Isso são apenas algumas das contradições mais comentadas na imprensa.



Damien Echols, Jessie Misskelly e Jason Baldwin. O trio de West Memphis acusado de assassinar três garotos em um ritual satânico


Devemos levar em conta também o local e o período quando tudo aconteceu. Estamos falando do início dos anos 1990, quando uma histeria coletiva conhecida como “pânico satânico” ainda permanecia evidente, apesar de ter tido seu auge na década anterior. Tratava-se da crença irracional em uma organização mundial de satanistas que sequestravam e matavam pessoas em rituais de magia negra, o que causava pânico generalizado na população. O crime ocorreu em West Memphis no estado do Arkansas, que fica bem no centro de uma região nomeada de “Bible Belt” (cinturão bíblico) devido ao perfil fundamentalista cristão dos habitantes dessa região.



Capa do documentário "Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hillsproduzido pela HBO em 1996



Johnny Depp e Damien Echols a época do lançamento do livro.

Todos esses elementos, de alguma forma controversos, fizeram com que a HBO produzisse um documentário – que acabou virando uma série de três – sobre o julgamento e a luta dos advogados dos acusados para expor todas a incongruências do caso. Podemos dizer que essas produções para a TV literalmente salvaram o trio de acusados. Afinal, a transmissão do documentário causou uma comoção internacional e a adesão em massa de vários artistas ao redor do mundo, que se solidarizaram com a causa do Trio de West Memphis. Dentre eles, seus ídolos da adolescência como as bandas Metallica e Slayer, além de artistas do quilate de Johnny Depp, Eddie Vedder( Pearl Jam) e o premiado diretor Peter Jackson ( Senhor dos Aneis).


Damien Echols na prisão

Damien Echols, Jason Baldwin e Jessie Misskelley foram libertados em agosto de 2011, depois de um acordo judicial com o estado do Arkansas, onde se declararam culpados dos assassinatos e assim o estado pôde encerrar o caso. Sem dúvida alguma, Echols foi a figura central desse caso e aquele que ganhou protagonismo na mídia, devido ao fato de ter sido o único dos três acusados condenado a morte.



A ideia inicial desse livro, talvez fosse focar em sua vida após conquistar a liberdade. No entanto, creio que seu passado na prisão não parece deixá-lo em paz, o que faz desse período a fonte de melhores relatos dessa obra. O livro tem uma estrutura de colcha de retalhos. Conta com trechos de seu diário, cartas escritas na prisão e recordações pouco claras de sua infância.


Damien Echols era um garoto problemático que nasceu na pacata e conservadora cidade de West Memphis do estado do Arkansas. Seus pais se separaram – mais de uma vez – e em algum momento Damien teve que viver com sua avó em um trailer. Se mudou várias vezes de casa, mas sempre viveu em comunidades de baixa renda. Portanto, além de sua aparência física e de suas roupas estranhas para aquela comunidade, sua classe social o denunciava como potencial criminoso. Echols narra seus anos de prisão com bastante detalhes e como sentiu medo de estar condenado a morrer.


“Como um homem poderia passar pelas coisas a que fui submetido e não se sentir assombrado?”
Damien Echols


A primeira parte do livro foca na história de um garoto sofrido de classe baixa, que não tinha muitas perspectivas de vida. Sua narrativa nesse ponto é até mesmo enfadonha, pois, apesar de ter o objetivo claro de expor a hipocrisia religiosa daqueles que rodeavam nosso autor em sua adolescência, não se distancia muito dos clichês desse gênero autobiográfico. Grande parte do livro, no entanto, trata-se dos relatos dos seus anos de prisão. Nesse ponto, a obra cumpre um papel bem mais crítico e revela como funciona o sistema carcerário americano já muito criticado.


“É enlouquecedor ficar sentado horas a fio, dia após dia, sendo julgado por algo que você e os policiais sabem que você não fez. Você se sente perscrutado por centenas de olhos que observam seus menores movimentos. Muitos pareciam achar que aquela era a melhor forma de entretenimento que já haviam visto. Urubus arrancavam a carne de mus olhos enquanto eu ainda estava vivo.”
Damien Echols

“A prisão é um show de horrores. O circo não faz ideia do que está perdendo. Serei o mestre de cerimônias nesta vista guiada por esse cantinho do inferno. Prepare-se para ficar atordoado e perplexo. Se a mão é realmente mais rápida do que o olho, você nunca descobrirá o que o atingiu. Eu sei que nunca descobri.”
Damien Echols

Nesse momento do livro, Echols consegue chocar o leitor. Ou seja, “Vida após a Morte” cumpre bem seu papel de denúncia. No entanto, como uma autobiografia de alguém que sofreu com a pobreza, com o cárcere e depois com a falha nos sistemas de justiça o livro parece ter um arco narrativo clássico de um livro de autoajuda, com um revestimento de redenção religiosa no final, o que, confesso, me incomodou um pouco. Mas se nos atermos às questões cabeludas do livro e sua crítica a hipocrisia de uma nação que se diz a terra da liberdade, podemos construir bons aprendizados dessa leitura.


Ficha técnica


Vida Após a morte


  • Título original: Life after Death

  • Autora: Damien Echols

  • Trad.: Marcello Lino

  • Editora: Intrinseca

  • Ano: 2013

  • 398 páginas












André Stanley é escritor e professor de História, inglês e espanhol. Também atua como designer gráfico e fotografo. É autor do livro "O Cadáver" e editor dos blogs: Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher. Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys.

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