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Resenha: Aracelli, meu amor

Atualizado: 24 de jan.



Em Aracelli, meu amor, José Louzeiro – autor de Infância dos Mortos, Elza Soares: cantando para não enlouquecer (biografia) dentre outros – narra a trajetória das investigações sobre a morte de Araceli Cabrera Sanches Crespo, uma menina de 8 anos que foi brutalmente assassinada em Vitória, capital do Espírito Santo, em 1973. Se trata de um romance de jornalismo investigativo, que, no entanto, optou por usar os nomes reais dos principais envolvidos nesse crime que chocou o país e permanece até hoje sem uma solução.


A sensação de injustiça perpassa por todo o livro. A inquietação popular em relação a falta de empenho das autoridades é evidente. Aliás, Louzeiro parte da perspectiva popular para construir sua história. Aponta o holofote às conversas de boteco e de barbearias onde populares de vários estratos da população de Vitória se encontram para discutir o caso que domina os noticiários de todo o país.


O caso real


No dia 18 de maio de 1973, a pequena Araceli, filha do espanhol Gabriel Crespo e da boliviana Lola Cabrera, foi raptada, drogada, estuprada e depois de morta teve seu rosto desfigurado com ácido na tentativa de dificultar sua identificação. Logo no início das investigações foram apontados alguns suspeitos que foram vistos com a menina horas antes do desaparecimento. Paulo Constanteen Helal, Dante Brito Michelini (Dantinho) e seu pai Dante de Barros Michelini, eram membros de famílias tradicionais de Vitória, proprietários de terra e de comércios.


Nunca foram presos por esse crime e hoje são considerados inocentes pela justiça. Foram levantadas suspeitas em relação à própria mãe da menina. Segundo testemunhas, Lola Cabrera, teria envolvimento com traficantes locais e conhecia os suspeitos. Especulou-se que ela tenha oferecido sua filha para uma orgia regada a drogas que saiu do controle. Ela parece nunca ter admitido que o corpo encontrado fosse realmente de Araceli. Um jovem usuário de entorpecentes chamado Fortunato Piccin foi apontado pelos próprios acusados como o verdadeiro assassino de Araceli, e como prova material entregaram à polícia um tecido que teria sido a saia de Araceli, que estava enterrado no quintal da casa de Fortunato, mas, ele morreu misteriosamente no hospital no mesmo dia em que o corpo da menina foi encontrada.


Outras mortes de pessoas ligadas ao caso foram relatadas, como a do policial militar José Homero Dias, que investigava o caso e tinha muitas informações sobre os suspeitos. Um traficante local conhecido como Boca negra também teria estado presente no evento que resultou na morte de Araceli e foi morto a facadas durante as investigações. Relatos de suborno e ameaças começaram a pulular, fazendo com que testemunhas-chave se recusassem a depor contra os acusados. O próprio José Louzeiro relata que enquanto fazia suas pesquisas durante a produção do livro aqui resenhado, sofreu uma tentativa de queima de arquivo em Vitória. Em 1975 foi feita uma CPI para apurar o caso e o deputado Clério Flacão, proponente da CPI, também relata ter sofrido ameaças, não só veladas, mas descaradas, para não levar a investigação adiante.


Recortes de jornais da época

A obra


A tragédia já dá as caras no primeiro capítulo, quando a doce criança é vista pela última vez viva no ponto de ônibus de frente a um bar. Portanto, caro leitor, não espere um enredo bonito e de ação, nos moldes policialescos americanos. Estamos falando da realidade nua e crua da investigação criminal brasileira, sem recursos e sem voz. Devemos lembrar que à época dos fatos o Brasil estava sob o governo de Emílio Garrastazu Médici, no auge da ditadura militar. Este livro chegou a ser censurado a pedido dos advogados dos acusados.


A escrita de Louzeiro é técnica e precisa. Seus personagens são profundos e as vezes enigmáticos. Louzeiro chega a flertar com o realismo mágico, gênero largamente difundido por escritores latinos nesse período. O que a meu ver não caiu bem, mas agradou muita gente.


O uso de uma cigana de nome, Rita Soares, uma personagem livre das amarras burocráticas do Estado se mostrou eficiente para ancorar a história no elemento popular, saindo vez ou outra da importunação constante dos depoimentos e das acusações que já são largamente conhecidas da população. Devemos lembrar que o livro veio a público apenas 3 anos após o crime.


A meu ver, as qualidades do livro são também sua fraqueza. Louzeiro tem acesso a muitas informações, o que é bom, mas parece querer colocar tudo em perspectiva principalmente nos diálogos entre seus personagens, o que fica difícil acompanhar em uma leitura simples. Nenhum problema para quem tem um bom poder de concentração.


O que o livro tem de bom?


Essa obra é um documento histórico. Levanta questões de extrema importância para a sociedade brasileira daquela época e seus desdobramentos na época atual. Mesmo tomando o cuidado jornalístico de manter seu narrador imparcial, Louzeiro expõe a extrema capacidade daqueles que detém o poder político de se manterem impunes dos crimes mais brutais simplesmente desacreditando a oposição por meio de calunias e por vezes literalmente eliminando as peças certas do jogo. Louzeiro traz à tona a exaustão social que o poder político causa no cidadão comum, que em sua maior parte já perdeu as esperanças de ver seus iguais sendo usados para pagarem pelos crimes dos poderosos.


Ou seja, é um livro importante, não só para o fã de literatura, mas para o historiador, o sociólogo, o psicólogo e outros cientistas que queiram botar na mesa de discussões temas como a violência sexual infantil, a falta de investimentos na inteligência das polícias, a imprudência hospitalar, a impunidade crônica, dentre outros. É um livro que através de um trágico evento, nos abre os olhos para a potencial capacidade humana de cometer crimes hediondos, impensados para uma sociedade que se diz justa e pautada pela ética.



Ficha técnica:

· Aracelli, meu amor

· Autor: José Louzeiro

· Editora: Prumo

· Ano de lançamento: 1976

· Esta edição: 2012

· 232 páginas
















André Stanley é escritor e professor de História, inglês e espanhol. Também atua como designer gráfico e fotografo. É autor do livro "O Cadáver" e editor dos blogs: Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher. Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys.

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