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Ser headbanger é ser neurótico?

Atualizado: 20 de set. de 2022


Imagem: André Stanley

Esse artigo foi originalmente publicado alguns anos atrás no blog "Crisálida de Aço", mas acho que o tema é legal para gerar discussões


“Enquanto existirem garotos chateados com a vida, continuará a existir o Heavy Metal.”


Assim profetizava Ozzy Osbourne, o avô do Metal nos idos dos anos 80s. Buscava definir em uma frase toda a essência do Heavy Metal e de sua legião de fãs ao redor do mundo. Creio não haver aforismo mais sábio que este.


Em 1984, época em que este estilo ganhava o mundo, um caso de suicídio chocou a opinião pública. Os pais do dito suicida resolveram processar o roqueiro inglês OZZY OSBOURNE por induzir, através de sua música, o rapaz a tirar sua própria vida. Um ano depois o JUDAS PRIEST, outra banda, também inglesa, de Heavy Metal que já tinha grande relevância na época, também enfrentou os tribunais por conta de dois fãs que atiraram em suas próprias cabeças no playground de uma igreja na cidade de Sparks em Nevada nos EUA. Um dos garotos morreu na hora, o outro sobreviveu, no entanto seu rosto ficou completamente desfigurado por conta da tentativa de suicídio, o que levou-o a concretizar o ato suicida anos depois.


Não era a primeira vez, no entanto, que o tema suicídio no meio do Heavy Metal vinha a tona. O próprio Ozzy já havia estado antes em situação semelhante – na época que este era vocalista do BLACK SABBATH – quando uma enfermeira teria se matado ao ouvir a música “Paranoid”. Outros casos como esses ocorreram posteriormente envolvendo bandas como, AC/DC e PINK FLOYD em mais de uma ocasião.


Culpar um estilo musical por fazer apologia ao suicídio parece uma solução confortável; sobretudo, para quem detesta tal música. Mas será que as famílias destes suicidas não querem mesmo é se redimirem da própria culpa? É uma pergunta polemica, mas valida.


A discussão seria mais proveitosa se analisássemos o perfil do fã de Metal. O popular “metaleiro” – como o próprio Ozzy nos alertou acima – é um sujeito, em geral, chateado com a vida. Alguém que precisa se libertar, de algum tipo de prisão psicológica que o oprime. E para não ficarmos apelando a autoridade do velho Ozzy, temos pesquisas cientificas sobre o assunto. talvez a mais conhecida e polemica tenha sido levada a cabo em 2011 pela Dra Katrina McFerran da Universidade de Melbourne na Austrália que resolveu pesquisar a influencia da música no humor das pessoas e o resultado acabou relacionando a predileção a ouvir Heavy Metal ao risco de depressão. Segundo a estudiosa:


A maioria dos jovens ouvem uma variedade de tipos de música de forma positiva; geralmente para bloquear a multidão, para levantar o humor ou para dar energia quando estão se exercitando, no entanto, jovens com risco de depressão estão mais propensos a ouvirem música, especificamente heavy metal, de uma forma negativa." (McFerran)


Apesar de os resultados desse estudo corroborarem a citação de Ozzy Osbourne, causou muita polemica na época por declarar o aspecto negativo do heavy metal.


Neste sentido, para a pesquisadora, a música pesada se torna uma espécie de válvula de escape e, sobretudo, uma forma de manifestação social, o headbanger quer ser ouvido e sua música é a única forma que encontra para que a sociedade o ouça.


Capa do filme "Metalhead" de 2013 que fala sobre metaleiros neuróticos.

Não acredito que o headbanger seja um suicida em potencial, como muitos especialistas da área de psicologia vêm cogitando. Afinal, – e essa é uma constatação pessoal – de todas as pessoas do meu círculo de amizades que tentou ou consumou o ato suicida, nenhum deles era headbanger. Mas essa é uma constatação anedótica, sem cunho científico.


No entanto, há artigos científicos que afirmam que o fã de Metal “têm uma tendência significativamente mais alta" a ter comportamentos depressivos e é sabido que o fã de Heavy Metal, muitas vezes, se encontra oprimido demais dentro de uma sociedade essencialmente conservadora, hipócrita e fundamentalista, que valoriza cada vez mais, padrões irreais de beleza e do que é socialmente correto ou aceitável.


O fã de Metal é na verdade, uma pessoa que se sente incapaz de viver no mundo real desolador e tão diferente daquele que almeja, onde peculiaridades comportamentais são tidas como evasão social, e não como um ato de criatividade.


Muitos, quando ficam mais velhos caem na real e veem que o tão sonhado mundo épico estampados nas capas dos álbuns das bandas que gostam é apenas uma “utopia”, uma idealização subjetiva de um mundo onde somente ele é o protagonista. Talvez até um “mundo paralelo” criado para dar mais significado a sua vida.


Mas as vezes, algo errado acontece - muito raramente é verdade - ao enfrentarem esse choque de realidade, sua mente já fortemente abalada pela frustração e, muitas vezes, pela falta de apoio familiar e social acaba fazendo com que esses indivíduos se atirem nas garras da depressão e vez ou outra tenham pensamentos suicidas.


Creio que a questão que deve ser discutida é, será que o Heavy Metal é um estilo – não só musical, mas também um estilo de vida – que atrai pessoas neuróticas e por isso temos casos como estes citados acima? Ou esse estilo se presta como um fator terapêutico que ajuda essas pessoas neuróticas a ter uma vida mais segura – mesmo que de forma idealista – e até mesmo a fugir de qualquer pensamento suicida?


Imagem: Pexel

Não é meu papel esgotar esse debate, até mesmo porque, apesar de ser fã de Heavy Metal há décadas, não sou especialista em saúde mental, mas qualquer discussão dessa importância cabe a qualquer pessoal envolvida na cena, incluindo os familiares. Afinal a depressão se tornou uma questão de saúde pública e deve ser tradada com cuidado, e em qualquer tribo urbana da modernidade esse problema estará presente, e no Heavy Metal não é diferente.


O que cabe a nós como seres humanos, é buscar entender esses casos e dar suporte a quem assim precisar, seja essa pessoa headbanger ou não.


Fontes:


Sites importantes para saber mais sobre o tema:


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