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Resenha – My Bloody Roots – A autobiografia de Max Cavalera

Atualizado: 9 de ago. de 2022


Imagem: André Stanley fotografias

Quando comecei a ler esse livro, eu já tinha em mente que se tratando de uma autobiografia, seria a narração da versão conhecidamente defendida por Max Cavalera a respeito da sua saída do Sepultura, banda que fundou com seu irmão Igor em 1984, ou seja, mais lavação de roupa suja, mas na verdade, essa parte da história é abordada, detalhadamente, apenas no capítulo 12 batizado com o dramático título de “1996 – Tragédia e traição.” - os capítulos estão divididos em ordem cronológica mostrando o anos dos eventos que serão narrados.


Vale a pena mencionar que eu encontrei esse livro em destaque em um estande de uma feirinha de livros na pacata cidade de Guaxupé no interior de Minas Gerais, onde eu participava expondo meu livro “O Cadáver”. Interessante notar como uma banda como Sepultura e um personagem icônico do Metal nacional como Max Cavalera consegue lugar de destaque em ambientes tão inusitados.


Para começar essa resenha tenho que esclarecer que eu fui um adolescente que cresceu ouvindo Sepultura, muitas vezes involuntariamente – afinal meu irmão mais velho era fã de Sepultura nos idos dos anos 1990s enquanto eu curtia meus discos do Guns ‘n’ Roses na sua vitrola. Li o livro em uma sentada, pois como podem perceber, tudo que Max tinha a dizer tinha relevância emocional para mim. Afinal, com o passar dos anos foi difícil estar indiferente ao que o Sepultura criou durante sua história, mesmo depois da saída de Max.


O livro cobre toda a carreira de Max Cavalera, que juntamente com seu irmão mais novo Igor simplesmente foram responsáveis pela criação do fenômeno Sepultura. Na verdade, Max começa a contar sua história muito antes da criação da banda, ainda na infância. Segundo Max, a perda precoce do pai, Graziano Cavalera, de alguma forma influenciou a guinada dos dois ao mundo do Metal extremo. A mãe, Vânia Cavalera, foi um elemento aglutinador ao aceitar receber um bando de moleques metaleiros de cabelo ensebado em sua casa em Belo Horizonte.


As histórias mais interessantes foram as descrições muito peculiares sobre a gravação dos primeiros discos e como a gravadora acreditou naquele bando de moleques doidos que nem sabiam afinar seus instrumentos. Atitude era um elemento essencial naquela época. Dá para notar que os guris mergulharam de cabeça naquilo e deram o sangue para criar algo que simplesmente não tinha precedentes na cena brasileira.


Outros pontos altos são as descrições dos experimentalismos de Max. Suas ideias muitas vezes mirabolantes acabaram produzindo coisas muito interessantes, como as bases para o que veio a se chamar New Metal anos depois. Seus perrengues com o vício em álcool também são tratados aqui. Tudo isso contado sem medo e de forma descontraída, mesmo que com um tom melancólico as vezes.


O livro segue o mesmo design de um documentário, onde leitor terá a oportunidade de ler depoimentos de músicos e outros personagens que fizeram parte da carreira de Max Cavalera. Como o de sua própria esposa Glória, então empresária da banda, que carrega até hoje o fardo de ser um dos estopins que gerou a separação da banda. Os depoimentos passam também por verdadeiros rock stars como Dave Grohl (FOO FIGHTERS – NIRVANA) que sempre exaltou o Sepultura como uma de suas bandas favoritas, é ele quem assina o prefácio deste livro. Há também muitos depoimentos de personagens icônicos do showbusiness, como Sharon Osbourne e até mesmo Sean Lennon o filho de John Lennon e Yoko Ono. Há também, fotos muito interessantes do arquivo pessoal de Max.


Sobre as tretas, muitas das que conhecemos foram relatadas por Max nesta obra a sua maneira. A questão é que sabemos que o grande lance das autobiografias é, de certa forma, afagar o ego do biografado. Então devemos ler este livro com essa informação em mente. Há um certo rancor na narrativa de Max ao se referir a seus ex-companheiros de banda. Nada surpreendente, afinal a treta entre os caras foi a razão da separação da banda no momento de maior evidência. Apesar de relatar as qualidades de Andreas Kisser e sua importância para a evolução do Sepultura como uma imponente banda de Thrash Metal no cenário nacional e internacional, Max não poupa críticas às limitações técnicas do baixista Paulo Junior à época. Aliás, algo que o próprio Paulo nunca negou.


A escrita de Max Cavalera é informal e empolgante e não raramente polêmica, como se espera de um rock star que não fez nada além e Heavy Metal em sua vida. Ao longo de 17 capítulos é possível sentir a raiva provinda das tragédias pessoais de Max saltando pelas páginas, como a morte do pai de forma precoce, sua saída do Sepultura fazendo-o se separar do próprio irmão, a morte de seu enteado que era um grande amigo e o envolvimento pesado com álcool, e como sua esposa Glória o salvou da queda profunda na obscuridade.


Ao finalizar o livro, o sentimento que ficou impregnado em mim é que Max Cavalera parece viver em uma adolescência crônica, que talvez pelo fato de ter sido essa rebeldia manceba a responsável pelo nascimento do Sepultura, faz o cara se apegar a isso mesmo depois de atingir os 40 anos – Max tinha 44 anos quando escreveu o livro. Não estou julgando o cara, isso pode ser uma verdadeira virtude ao considerarmos a vitalidade do cara que parece nunca parar de produzir música de qualidade e sem perder um milímetro de peso e isso não parece diminuir com os anos de vida. Max é um músico único e insaciável, por isso vale a pena ouvir todos os projetos que ele criou ou se envolveu de alguma forma, muitos deles como NAILBOMB, CAVALERA CONSPIRACY e sua participação no projeto PROBOT, capitaneado por Dave Grohl, são relatados nesse livro.


O livro também é um registro da formação do SOULFLY – banda que Max fundou logo após a sua saída do Sepultura – que é hoje considerada uma banda precursora do New Metal e é onde Max Cavalera deposita toda sua criatividade desde então. Alguns fatos insólitos e ao mesmo tempo interessantes dão o tom da narrativa após o capítulo 12 – que fala sobre o racha no Sepultura. Max neste momento revela sua técnica de compor e sua eterna busca por novas sonoridades. Ele também relata uma história bem bizarra sobre enterrar as fitas originais do SOULFLY por 24 horas antes de mandar prensar, algo a ver com a energia e tal – resquícios supersticiosos típicos do Brasil – ficamos sabendo também neste livro que Max foi iniciado na umbanda por influência de sua mãe.


Se eu tivesse que delimitar esse livro utilizando poucos adjetivos, eu diria que é um trabalho um pouco ressentido, porém vigoroso. É uma obra importante para cena internacional do Heavy Metal e essencial para quem quer entender um pouco sobre as dificuldades das relações entre banda e empresários, principalmente se o empresário tem família constituída com um dos membros da banda.


My Bloody Roots – Max Cavalera

Tradução: Roberto Muggiati

Editora Agir - 2013


André Stanley é escritor e professor de História, inglês e espanhol. Também atua como designer gráfico e fotografo. É autor do livro "O Cadáver" e editor dos blogs: Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher. Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys.

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