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Resenha – Mulheres do Rock: Elas levantaram a voz e conquistaram o mundo

Atualizado: 15 de ago. de 2022


Laura Gramuglia - Autora de Mulheres do Rock - Editora Belas Letras
A desigualdade de gênero infelizmente se esconde em todos os lugares, e a música é só um dos ambientes em que uma mulher é obrigada a dar passos gigantes para recuperar terreno. (Laura Gramuglia)

Este livro é uma seleção de 52 perfis de mulheres que tiveram ou ainda têm relevância para a história da música pop contemporânea. A autora nos apresenta aspectos pessoais, ideológicos e eventualmente musicais destas mulheres.


O primeiro critério que parece ter sido utilizado para a seleção dos perfis é o gosto pessoal da autora, a jornalista e radialista italiana Laura Gramuglia. A relevância dessas mulheres para a cena musical moderna e o engajamento destas nas causas feministas são outros requisitos básicos utilizados por Laura nesta seleção. A edição brasileira, que resenhamos aqui, conta ainda com a adição de duas roqueiras tupiniquins de períodos distintos, Rita Lee e a baiana Pitty.


O livro pode ser lido de cabo a rabo como qualquer outro – o que recomendo – como também pode ser lido de forma aleatória indo direto para o nome da biografada que você deseja ler. Aliás, o formato escolhido pela autora parece ter sido pensado para ser lido assim.


Alguns leitores poderão torcer o nariz para a escolha da autora, afinal nem todas as mulheres selecionadas são conhecidas por serem roqueiras, semanticamente falando. Pois apesar desse termo ter uma grande elasticidade, ainda há fãs mais puritanos que irão dizer que Whitney Houston e Madonna não fazem parte desse time. Nesse caso, recomendo que reconsiderem e pensem na atitude e no background dessas artistas.


Sempre iniciando com parte da letra de uma música icônica dessas mulheres, a autora apresenta declarações já conhecidas das próprias artistas em meio ao texto como aforismas que encerram em si mesmos o pensamento de cada uma delas.

O pensamento de Joan Jett por exemplo é sintetizado pelos dizeres:


Não quero diminuir o que consegui, mas não é tão difícil assim tocar em um grupo. Se têm uma saúde boa e amam viajar, não vejo por que outras mulheres não deveriam fazê-lo. (Joan Jett)

Joan Jett é sem dúvida a ex-Runaways que mais se engajou no discurso feminista, e provavelmente foi isso que fez ela estar entre as escolhidas desse livro e não sua ex-colega de banda Lita Ford que teve uma carreira bem-sucedida entre o público de hard rock nos anos 80 e 90, mas não se engajou tanto no discurso identitário. Aliás, Lita Ford é sempre vista como alguém que reproduziu os padrões sexistas do Heavy Metal dos anos 80, ao invés de se opor a eles. O que ela sempre negou.



Capa da edição original

Como um entusiasta das artes gráficas digo que um dos pontos altos desta obra está na sua composição imagética. O livro conta com ilustrações belíssimas da artista plástica italiana Sara Paglia, que fez uma ilustração do rosto de cada uma das mulheres biografadas para abrir cada um dos capítulos. Os tons pastéis utilizados pela artista registram uma feminilidade refinada e ao mesmo tempo rústica, algo que o livro parece buscar. A capa da edição brasileira de tom acinzentado, não tem a mesma vitalidade da original que traz uma aquarela caótica em vários tons de púrpura, o que, a meu ver, é mais condizente com o tema.


O livro tem uma linguagem agradável, fácil e moderada se levarmos em conta que se trata de um livro que explora o tempestuoso mundo do rock n’ roll. É uma bela coletânea de trechos de canções icônicas e dizeres proferidos por mulheres que ousaram dispensar a dominação masculina deste nicho musical para se tornarem protagonistas. Como podemos ver nos dizeres de Tori Amos:


por muito tempo ninguém deu espaço para a raiva feminina, que agora emergiu com mais evidência. (Tori Amos)
Tori Amos - por Sara Paglia

A própria Tori, ao criticar o descarte das mulheres de idade elevada promovido pela indústria musical acrescenta:

Às vezes, parece que na música pop não há lugar para as mulheres quando envelhecem, nem como artistas nem como público. A essência do rock é a rebelião juvenil, principalmente masculina. Pode fazer o papel de roqueira por alguns anos, mas a mulher madura é a inimiga número um. (Tori Amos)

Sobre essa disparidade de tratamento entre os roqueiros e as roqueiras acrescentará Marianne Faithful:


Um roqueiro que se droga é legal, já uma mulher não presta. (Marianne Faithful)

E dentre as representantes atuais das mulheres engajadas do rock é a cantora americana St. Vincent que dá o tom do discurso pró-igualdade quando diz:


Como em todos os lugares de poder, é necessário poder sentar-se à mesa. Se não estiver à mesa, você está no menu. Portanto, é importante ter mais mulheres em posição de poder para dar uma possibilidade a quem, por razões do sexismo sistêmico, ainda não teve nenhuma. (St. Vincent)

Sintetizando, o livro de Laura Gramuglia tem um tom politizado e engajado na defesa das pautas feministas que tiveram início em meados dos anos 60, justamente por meio de mulheres que passaram a usar seus status de artistas para engrossar a voz contra a dominação masculina na cena musical. Joan Baez viveu no olho do furacão nesse momento de tomada de protagonismo:

Os movimentos sociais dos anos 1960 ofereciam uma provisão ilimitada de material sobre o que cantar e para escrever músicas, e transformaram em palco também as manifestações, as paradas e os espetáculos de arrecadação de fundos. Um momento de intensa ação e também de liberdade exaltante para as mulheres que começavam a sair da garrafa no campo musical. (Joan Baez)

Por ser um livro de espírito enciclopédico, seria fácil deixá-lo enfadonho. No entanto, o que vemos aqui é uma colcha de retalhos muito bem costurada pela autora que não esconde seu engajamento. Todas as mulheres apresentadas aqui têm grande relevância para a cena roqueira internacional - e nacional, no caso de Rita Lee e Pitty. No entanto, acho inaceitável que em uma obra que se pretende feminista e politizada, não seja mencionada em nenhuma de suas linhas, o nome daquela que, hoje sabemos, deu o pontapé inicial nessa coisa toda. Estou falando de Sister Rosetta Tharpe, uma mulher negra e cristã que já destilava seus riffs eletrizantes de guitarra na década de 40, antes mesmo de Chuck Berry, Little Richards e o próprio Elvis Presley pensarem em gravar um disco. Fica a dica.




Ficha técnica

Mulheres do Rock: Elas levantaram a voz e conquistaram o mundo

Título original: Rocket Girls: storie di ragazze che hanno alzato la voce

Autora: Laura Gramuglia

Ilustrações: Sara Paglia

Trad.: Tatiana Yoshizumi

Editora: Belas Letras

Ano: 2019

348 páginas


Play list: Uma faixa de cada uma das mulheres biografadas no livro.




Sites úteis:

· Perfil da autora no Instagram: https://www.instagram.com/lauragramuglia/?hl=en

· Site oficial da artista plástica Sara Paglia: https://www.sarapaglia.it/

· Editora Belas Letras: https://www.belasletras.com.br/mulheres-do-rock--elas-levantaram-a-voz-e-conquistaram-o-mundo/p


André Stanley é escritor e professor de História, inglês e espanhol. Também atua como designer gráfico e fotografo. É autor do livro "O Cadáver" e editor dos blogs: Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher. Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys.

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