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Profissão Professor – A arte de ser eternamente frustrado

Atualizado: 4 de nov. de 2022




Você preparou sua aula detalhadamente. Sua folha de preparação de aula parece uma receita de bolo, mostrando o passo-a-passo e que ingrediente usar a cada momento especifico. Você fez tudo metodicamente. Cada pingo no “I” foi previamente calculado para que na hora da execução tudo ocorresse bem.


Uma boa preparação de aula te dá segurança. Você entra na sala de aula como um detetive que desvendou um caso e tem toda ação do crime documentada. Na sala de aula, diante da primeira adversidade encontrada, geralmente em decorrência da indisciplina de algum aluno, você se perde. Tudo que você havia planejado já não parece aplicável. Como vamos nos preparar para o momento em que um garoto travesso resolve mijar no canto da sala de aula, por não ter sido liberado para ir ao banheiro? Ou quando um pirralho resolve cortar o cabelo da colega evangélica e ainda pergunta : "Onde está o seu deus agora?"

Professores jovens podem passar por experiências assim em seu primeiro dia de aula. Mas não pense que isso é passageiro. Experientes doutores da arte de educar também se frustram dia sim, dia também, diante de situações decepcionantes que encontram em uma sala de aula. A profissão de professor é sem dúvida a mais frustrante que você pode escolher.


Mas se você é um(a) jovem professor(a) e está se preparando para enfrentar uma sala de aula no ensino privado ou público, não desanime. Uma frustração é na verdade uma forma de fazer você fixar um pouco mais os pés no chão. É óbvio que o que nos move a escolher o magistério é geralmente uma questão muito subjetiva que na maioria das vezes nem mesmo nós sabemos como nos tornamos assim tão entusiastas da educação. Muitas vezes, o que nos move para isso, é uma incapacidade nata de aceitar o mundo de injustiças em que vivemos e queremos proporcionar uma boa educação às gerações futuras para que eles não cometam os mesmos erros que nós cometemos ao formar a sociedade atual. Um discurso por demais clichê, porém nobre.


Outras vezes o que move o indivíduo a buscar uma carreira na área da educação é uma necessidade inerente e narcísica de expor ao mundo diretrizes ideológicas através de uma educação direcionada e nitidamente enviesada. Esses últimos geralmente não sobrevivem no ambiente escolar e não raramente se tornam críticos do sistema educacional, ou coaches de sucesso - e a palavra 'sucesso' aqui foi aplicada para a interpretação do leitor.

Ou seja, somos levados por motivos diferentes à mesma peleja. Geralmente almejando um mundo melhor através da educação. Quando somos enviados ao campo de batalha, no entanto, somos obrigados a encarar nossos piores demônios - é não é somente uma metáfora para alunos travessos.

A frustração é e sempre será a consequência mais óbvia do processo de ensino-aprendizagem. Mas depois de algum tempo você pode transformar sua frustração em causa e não mais em efeito.


O professor(a) deve ser sempre – se quiser tirar proveito de sua frustração – um profissional reflexivo. A cada acerto ele deve fazer uma avaliação subjetiva de como tudo ocorreu e adicionar isso a seu repertório de sucessos – sempre lembrando que cada aluno, cada escola, e cada sala tem características próprias onde uma mesma postura pode ter efeitos diferentes.


Como disse o historiador Leandro Karnal em seu livro (Conversas com um jovem professor).


Uma aula brilhante ou uma aula fracassada devem ser analisadas. Há motivos para isso. Quanto mais você conseguir (e você poderia até pedir ajuda nesse processo aos alunos) avaliar, mais terá consciência. Saber que uma coisa não deu certo num ano não é rejeitá-la. Não existem fórmulas...

Ou seja, quando seu plano não dá certo, deve-se da mesma forma avaliar tudo que deu errado e tratar sempre a situação como uma forma de aprender. Utilizar cada derrota como uma forma de atualizar e fortalecer sua técnica é a virtude mais importante de todo lutador. O mesmo ocorre com o professor. A frustração só pode gerar, no professor competente, o desejo de aprimorar ainda mais sua abordagem.


O processo de formação de professores no Brasil não prepara realmente o professor para a sala de aula. Por isso, o maior trunfo de um professor competente hoje em dia é focar em como lidar com as frustrações da profissão e considerá-las como suas melhores ferramentas de aprendizagem. Algo deve ficar bem claro quando analisamos nossas atuações. O ser humano é corruptível e sei que é difícil de acreditar, mas, o mundo em que vivemos hoje foi o melhor que nossas sociedades conseguiram construir no decorrer do processo histórico. Somos os seres mais instáveis que existem, portanto, não cabe a você querer construir uma sociedade ideal com a matéria-prima que temos, devemos progressivamente trabalhar para fortalecer essa matéria-prima. Nesse sentido sim, a educação tem papel fundamental.

Para saber mais:


André Stanley é escritor e professor de História, inglês e espanhol. Também atua como designer gráfico e fotografo. É autor do livro "O Cadáver" e editor dos blogs: Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher. Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys.

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