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Lolita- Como criar uma capa para uma obra tão controversa?

Atualizado: 19 de jan.


Este texto foi inspirado no artigo de Isabel Zapata, "Juzgar Lolita por su portada" publicado no site "Letras Libres" em 2018.


Será que podemos julgar um livro clássico como Lolita pela capa?

Neste artigo vamos averiguar algumas capas produzidas para "Lolita", o polêmico livro de Vladimir Nabokov e analisaremos a relação da mensagem visual com o romance.


Quando visitamos uma livraria, física ou online, geralmente já temos em mente o tipo de livro que estamos procurando. Um best-seller que todo mundo está lendo, um livro técnico que o professor da universidade recomendou ou um clássico que sempre queremos ler e dificilmente encontramos tempo para isso, mas é acolhedor vê-lo na prateleira junto aos outros. No entanto, há situações em que a capa nos chama para ler a resenha da contracapa e caso nos interessamos pelo conteúdo acabamos comprando.



1955 FR France – Olympia Press (The Traveller's Companion, Nr. 66) Paris

A capa geralmente não é a protagonista de nossa escolha, mas é o elemento que primeiro nos atiça. Muitos não notam a importância da capa para uma obra clássica que atravessou décadas sendo discutida e questionada pela crítica literária e pela opinião pública de cada período.


No caso de Lolita, o romance mais aclamado de Vladimir Nabokov, este elemento ganhou uma importância retumbante, já que a história toca em um tema que nunca deixou de ser polêmico, por isso gera desconforto desde seu lançamento em 1955.


As tentativas de traduzir em elementos gráficos a complexidade deste romance foram cerceadas pelo próprio autor que não admitiu que sua publicação original - pela editora especializada em publicações eróticas, “Olympia Press” de Paris - trouxesse na capa qualquer imagem, nem mesmo uma representação pictórica de Lolita; talvez temendo por sua reputação. O que fez com que o livro saísse apenas com os dizeres “LOLITA” e o nome do autor em um fundo padrão verde neutro sem chamarizes.

No entanto, o elemento sexual do livro foi motivo de escândalo e isso era forte demais para não ser explorado por capistas de diversas editoras mundo afora nos anos posteriores, chegando à beira da pornografia explícita na edição de uma editora finlandesa dos anos 90s. No entanto, essas imagens pareciam estar mais em sintonia com o mercado de itens eróticos do que com o conteúdo literário.



1964? TUR Altin Kitaplar Yayinevi, Istanbul

Na edição turca de 1964 podemos ver uma mulher nua em uma pose clássica. Uma imagem genérica, talvez saída de um estudo do corpo feminino, feito por algum pintor iniciante. Apesar de charmosa, esta capa não corresponde ao estereótipo criado pelo romance, de uma pré-adolescente precocemente sexualizada e abusada pelo seu padrasto quarentão.













1959 TUR Turkey – Aydin Yayinevi, Istanbul (unauthorized)

Uma outra publicação turca anterior (1959) mostra um casal se abraçando ternamente. Apesar de o artista ter tentado dar um aspecto juvenil à mulher, nada impediria a quem visse esse livro na prateleira, de pensar que se tratava de um romance trivial, daqueles de bancas de jornal. O que, volto a dizer, não corresponde ao aspecto abusivo contido no livro.

Ou seja, Lolita, para alguém que olhava para essas capas, parecia uma mulher crescida, plenamente responsável pelos seus atos. É interessante imaginar a perplexidade do leitor médio da época do "Amrerican way of life" ao descobrir que a personagem que dá nome ao livro é uma menina de 12 anos que tem um relacionamento amoroso com seu padrasto, um pedófilo confesso.


1962 US U.S.A. - Movie theater poster for für Stanley Kubrick's film

A imagem mais icônica e que se tornou lugar comum nas representações de Lolita, foi propagada pelo filme de Stanley Kubrick de 1962 que teve a audácia de levar o romance para as telas do cinema, com Sue Lyon no papel de Lolita.


Nesta representação gráfica, Lolita é representada de óculos escuros em formato de coração chupando um pirulito. Uma cena que não pode ser encontrada em nenhum momento do filme, no entanto, ajudou a consolidar a imagem da adolescente precocemente sexualizada - quase uma predadora sexual - que iria ser parte do imaginário popular desde então.







1970s NL Netherlands – Title 'Lolita: Door begeerte gedreven' [Lolita: Driven by desire] – Omega Boek, Amsterdam– Translation, M. Coutinho – Cover Erik Handgraaf – ISBN 90-6057-418-4

Uma edição publicada na Holanda em 1970 já deixava explícito o caráter sexual do romance, algo que sempre fora recorrente, mas que será mais abundante nas décadas de 1970 e 1980, quando os designers de capas utilizavam fotos de modelos reais para ilustrar as capas dos livros. Isso se tornou tendência no meio erótico.















1974 TUR Turkey –Altin Kitaplar Yayinevi, Istanbul (unauthorized) – Translation, Gönül Suveren

Esta outra edição turca de 1974 mostra uma garota nua de costas mordendo uma maçã. Neste caso a ousadia do designer foi muito além, pois a modelo apresenta traços explicitamente juvenis. Hoje em dia creio que em qualquer país ocidental esta imagem não passaria pelo crivo das grandes editoras pois seria execrada pela opinião pública. Mas, nos anos 70s, surpreendentemente parecia haver certa tolerância a esse tipo de representação na cultura pop, pelo menos em alguns países.









Virgin Killer (1976) Scorpions Capa censurada

Mais ou menos nesta mesma época a banda de Hard Rock alemã Scorpions, lançava seu álbum "Virgin Killer" que mostrava uma adolescente nua na capa. Eles foram obrigados a lançar capas alternativas para que que o álbum fosse vendido fora da Alemanha. O que demonstra que a censura de uma imagem está ligada não só ao período histórico em que ela circula, mas também ao território geográfico.







1980 IT Italy – Mondadori (Gli Oscar), Milano – Translation, Bruno Oddera – Cover painting Le lever by Balthus (1975-78) – no ISBN

Nesta edição italiana de 1980, temos uma pintura que mostra elementos que poderiam ilustrar a capa de um livro infantil de fantasia, todavia ao ler o livro o leitor irá perceber que o que vemos em primeiro plano não é um cupido asexuado, mas sim uma menina nua sensualizada. Apesar de chocante, esta imagem certamente traduz a atmosfera complexa desta história de uma adolescente que é iludida por um homem adulto.


















Em 1992 uma editora finlandesa lança o romance em dois volumes exaltando a nudez de uma modelo adulta, o que não o diferenciava em nada das capas de revistas baratas de pornografia que eram facilmente encontradas nas bancas de jornais desta época.

1992 FIN (1) Finland – Gummerus, Jyväskylä, vol.1 – Translation, Eila Pennanen and Juhani Jaskari – ISBN 951-20-4102-2 1992 FIN (02) Finland – Gummerus, Jyväskylä, vol.2 – Translation, Eila Pennanen and Juhani Jaskari – ISBN 951-20-4103-0





Já nos anos 2000, sob a influência do "politicamente correto" as representações gráficas nas capas de Lolita, ficaram menos explícitas, mostrando muitas das vezes, uma foto do autor ou elementos gráficos implicitamente sugestivos já que a história já era conhecida o bastante para que uma mensagem subliminar fosse o suficiente.


2004 RU Russia – 'Lolita' / 'Drugie berega' [Speak, Memory] – EKSMO-Press (Krasnaya kniga russkoi prozy), Moskau – ISBN 5-699-07566-6
2002 TUR Turkey – İletişim Yayınları, Istanbul – Translation, Fatih Özgüven – ISBN 978-9-7547-0101-2





Recentemente, a editora espanhola “Anagrama” recrutou a artista plástica coreana Henn Kim para idealizar a capa de uma nova edição de Lolita. A capa de Henn Kim é minimalista e mostra uma Lolita sendo trespassada por uma chave metálica daquelas de dar corda em relógio ou algum brinquedo a corda antigo. A veia feminista da artista está fortemente representada nesta figura, afinal pela primeira vez vemos uma menina em uma posição de sofrimento deixando explícito o abuso sofrido nas mãos de seu algoz.

A “evolução” das capas de Lolita mostra que o elemento gráfico pode traduzir uma história clássica para os debates de seu tempo. A história é a mesma, mas a forma como a enxergamos muda no decorrer da história. A capa de Henn Kim não poderia ser mais apropriada para uma Lolita vista pelos olhos atuais.

Se um leitor contemporâneo que nunca teve a chance de ler o romance lê-lo a partir da visão desta capa, poderá ter uma percepção diversa daqueles que o leram nas décadas anteriores. Afinal as capas com uma garota feliz chupando um pirulito pressupõe uma história de amor entre Humbert e Dolores (Lolita). Uma história de amor nos induz a pensar que ambos os personagens estão em pé de igualdade em seu afeto um pelo outro. Ou seja, vemos a história sob a ótica do narrador que é o próprio Humbert, e é ele que enxerga Lolita como uma "Femme Fatale". Será que Lolita em seus 12 anos de vida nutre o mesmo sentimento por seu padrastro?

O que a capa de Kim propõe é olhar a história contada por um adulto pedófilo sob o ponto de vista de uma criança que serviu de brinquedo em suas mãos.

Com isso não quero dizer que esta é a melhor capa na escala evolutiva que mostrei aqui, apenas quero pontuar que as capas de um livro não são meros protetores contra a poeira. Há uma razão para uma editora escolher um determinado designer de capas. E há portanto, um motivo para um capista usar uma configuração de cor, uma textura ou uma imagem ao invés de outra e a capa de Henn Kim ilustra muito bem esse aspecto.

Se podemos tirar alguma lição desta viagem por diversas capas de Lolita, é o fato de que o livro é um elemento vivo, que passa por transformações no decorrer da história e a capa é uma maneira de demonstrar os vários tipos de leituras possíveis de uma mesma história.

Publicação espanhola - 2018 tradução: Francesc RocaI - SBN 978-84-339-6017-7

Para saber mais:

  • As capas utilizada para ilustrar esse artigo foram retiradas deste site que tem uma compilação com 210 capas de Lolita de 40 diferentes países.

  • Leia a resenha que escrevi sobre Lolita neste blog aqui.

  • Leia o artigo de Isabela Zapata, que inspirou este texto aqui

Fontes:

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