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Holocausto Brasileiro de Daniela Arbex: Além dos muros do esquecimento

Atualizado: 21 de mar.




O livro-reportagem "Holocausto Brasileiro" de Daniela Arbex é uma obra tragicamente alarmante que mergulha profundamente na história do tratamento dado a pacientes psiquiátricos no Brasil até muito pouco tempo atrás. Publicado em 2013, o livro se destaca por expor de forma crua os horrores vividos por milhares de seres humanos abandonados no hospital Colônia na cidade de Barbacena, Minas Gerais. Esse livro se tornou um relato de extrema importância nas discussões sobre o tratamento dado aos doentes mentais no Brasil.




A autora realiza uma profunda pesquisa documental para revelar os abusos, negligências e violações dos direitos humanos que ocorriam cotidianamente no hospital Colônia. A repórter coletou relatos de ex-cuidadores, ex-funcionários e centenas de sobreviventes desse massacre brasileiro que ocorreu por décadas. Como a jovem Marlene Laureano, contratada como atendente psiquiátrica, e já em seu primeiro contato com sua função ficou desiludida com a situação daquelas pessoas que morriam as dezenas diariamente. A autora narra assim a saga da jovem Marlene:

 

“Ao esfregar a vassoura contra o piso, a jovem viu o emprego dos sonhos se transformar em pesadelo. Começara a trabalhar num campo de concentração travestido de hospital” (ARBEX, p. 24, 2019)

 

Por meio de uma narração crua e com inserções cirúrgicas das palavras dos cuidadores e dos próprios sobreviventes do Hospital Colônia, o leitor é conduzido por uma coletânea de histórias de abuso, preconceito e sobretudo, abandono, revelando um verdadeiro morticínio que não poderia ter outro nome senão “Holocausto brasileiro”.





Daniela Arbex reconstrói a memória de centenas de brasileiros abandonados visando tirá-los do esquecimento e amplificar suas vozes. Como diz Eliane Brum no prefácio deste livro,


“O repórter luta contra o esquecimento. Transforma em palavra o que era silêncio. Faz memória.” (Eliane Brum, p.13)

Os eventos relatados nessa obra jogam luz a um verdadeiro assassinato em massa praticado pelo estado brasileiro com a conivência de profissionais da saúde. Pela falta de referências similares na nossa literatura e devido a sua capacidade de causar indignação e repulsa, eventos trágicos como este nos obrigam a buscar exemplos em grandes tragédias ocorridas na história para nomeá-los.


Holocausto Brasileiro pode parecer exagero retórico à primeira vista, ou somente um clickbait perfeito, mas a verdade é que milhares de pessoas foram em sua grande maioria internadas naquele hospício forçadamente, transformadas em “não-humanos” negligenciadas pela sociedade, que sempre lançava olhadelas entusiasmadas para os ideais eugenistas que tiveram seu auge nas três primeiras décadas do século XX.


Ou seja, temos aqui uma precisão conceitual muito assustadora que nos liga aos assassinatos em massa conduzidos pelos nazistas que desumanizavam algumas parcelas da população. Além dos judeus, os ciganos, os homossexuais, as pessoas com deficiência – incluindo pessoas com transtornos mentais – e que não se enquadravam na restrita estrutura da sociedade ariana eram enviadas para serem mortas nos campos de concentração nazistas.





Delinquentes, mães solteiras, mendigos, negros, alcoólatras, homossexuais, opositores políticos de algum figurão, pobres em geral e pessoas sem documentos eram alguns dos indivíduos rejeitados pela sociedade, que encontravam seu destino dentro dos pavilhões frios e úmidos forrados com capim seco e com cheiro de excrementos que o hospital Colônia tinha a oferecer aos seus internos. A autora apresenta uma estimativa de mais de 70% de internos sem diagnósticos no Colônia.


As semelhanças com os campos de concentração de Auschwitz construído pelos nazistas na Polônia não param por aí. Segundo a autora:

 

Os deserdados sociais chegavam a Barbacena de vários cantos do Brasil. Eles abarrotavam os vagões de carga de maneira idêntica aos judeus levados, durante a Segunda Guerra Mundial, para os campos de concentração nazistas de Auschwitz. (ARBEX, p.28, 2019)


Primeiras Estórias de Gumarães Rosa (Capa da primeira edição (1962)

Esse trem foi batizado de Trem dos Loucos e foi imortalizado no conto “Sorôco, sua mãe e sua filha” de Guimarães Rosa, publicado em 1962 no livro “Primeiras Estórias”. Nesse conto clássico da literatura brasileira, Sorôco teve que tomar a decisão mais difícil de sua vida, estava prestes a mandar sua mãe e sua filha para o hospício de Barbacena. Sorôco que já era viúvo, estava prestes a perder as duas únicas pessoas que amava nessa vida. O narrador descreve o vagão do trem como tendo uma feição diferente.







“Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, todo novo. A gente reparando, notava as diferenças. Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso dai de baixo, fazendo parte da composição. Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre” (ROSA)

O conto transmite uma atmosfera melancólica de um homem que jamais verá sua mãe e sua única filha novamente, pois as havia perdido para a loucura e para onde elas iam, jamais sairiam.


60.000 pessoas perderam a vida no nosso campo de concentração de Barbacena desde sua fundação em 1903. Nem mesmo depois de mortos essas pessoas tiveram paz. Um dos capítulos mais perturbadores do livro trata da venda de cadáveres do Colônia para faculdades de medicina.


Entre 1969 e 1980 se estabeleceu um verdadeiro comércio de cadáveres que saiam do Hospital Colônia para várias faculdades de medicina de todo o país. Segundo o levantamento da autora, foram vendidos 1.823 corpos saídos do Colônia. Essas pessoas morriam de fome, de frio, de desnutrição, para você ter uma ideia, o esgoto que cortava os pavilhões e corria pelo pátio era uma fonte de água para os internos beberem.


Michel Foucault (1926-1984)

A autora também faz uma breve apresentação de um dos maiores intelectuais que já abordou a temática da loucura. No capítulo, “Turismo com Foucault” a autora relata uma visita do eminente filósofo francês a Minas gerais durante uma série de palestra que fez no Brasil em 1973. Foucault é autor do livro mais influente sobre a loucura no campo acadêmico. Quando publicou História da Loucura em 1961, seu nome passou a ser um baluarte para os defensores do fim das internações manicomiais. Segundo o psiquiatra Ronaldo Simões Coelho, que acompanhou Foucault em sua passagem pelo Brasil, o filosofo ficou impressionado com a realidade da loucura nos hospitais mineiros.


Daniela Arbex não foge à polêmica briga que envolve a luta antimanicomial no Brasil. E nessa briga, temos personagens de peso como o consagrado poeta Ferreira Goulart que, com dois filhos com esquizofrenia, se mostrou hostil às propostas de reforma psiquiátrica no Brasil. As conclusões que podemos chegar, em relação às questões envolvendo o tratamento psiquiátrico, giram ao redor de termos e nomenclaturas que parecem não estar claros para ambos os lados da guerra de narrativas.



Ferreira Goulart (1930-2016)

Essa batalha retórica se tornou pública entre Goulart e o deputado federal mineiro Paulo Delgado, que propôs a lei que previa descontinuar o sistema de internação dos doentes mentais em hospitais fechados. Goulart atacou Delgado publicamente chamando-o de “cretino”, dizendo que o deputado


“não sabe o que é conviver com pessoas esquizofrênicas que muitas vezes ameaçam se matar ou matar alguém. Não imagina o quanto dói a um pai ter que internar um filho, para salvá-lo e salvar a família.” (GOULART, apud. ARBEX, p.238, 2019)

O poeta ainda acrescenta.


“Esse idiota tem a audácia de fingir que ama mais meus filhos do que eu.” (GOULART, apud. ARBEX, p.238, 2019)

Delgado, alegou, por sua vez, que


sua proposta de lei “não desconhece a doença mental. Ela regula a forma como tratá-la. As insuficiências do tratamento não são da lei, mas da deficiência na sua aplicação. A doença é uma coisa normal da vida. O que não é normal é não haver convivência pacífica com ela [...] A reforma psiquiátrica é, de certa forma, a abolição da escravidão do doente mental, seu fim como mercadoria de lucro dos hospitais fechados, da exploração do sofrimento humano com objetivos mercadológicos.” (DELGADO, apud. ARBEX, pp.239,240, 2019)

Mesmo depois da aprovação em 2001, do projeto de lei, proposto por Delgado – depois de várias modificações em suas tramitações no congresso – os debates sobre o tratamento do doente mental ainda estão longe de chegarem ao fim. Não há quem consiga defender a existência de instituições como o Colônia de Barbacena no Brasil atual, no entanto, ainda temos que construir um sistema substitutivo eficiente que atenda esses doentes e dê amparo as famílias, principalmente as mais carentes.


Não podemos deixar de mencionar, como consequência mais visível da reforma psiquiátrica brasileira, a criação dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) em 2002 como parte da reforma psiquiátrica que visava substituir progressivamente as instituições manicomiais fechadas transmitindo a função de tratamento mental para unidades inseridas em bairros estratégicos das cidades, sem a prerrogativa da internação, mas sim da assistência pontual e individualizada dentro da própria comunidade.


Apesar das críticas, houve avanços inegáveis na atenção dada aos indivíduos que necessitam de tratamento psiquiátrico. Muitos dos sobreviventes do hospital Colônia se encontram hoje em casas de atenção comunitárias e sem dúvida suas vidas atuais contrastam com o que presenciaram na infância e adolescência no Colônia. Mas a atenção conquistada a custo de muita luta e militância parece vez ou outra cambaleante a depender das escolhas políticas feitas por alguns governos em relação ao tratamento humanizado dos doentes mentais.


A meu ver, nós, como sociedade, temos que nos manter vigilantes para que não haja nenhum retrocesso nas conquistas que obtivemos até aqui e essa parece ser uma preocupação da autora quando expõe as dificuldades da luta contra o tratamento desumano sofrida por indivíduos em hospitais psiquiátricos Brasil afora.


Daniela Arbex adota uma abordagem analítica e crítica, evidenciando seu compromisso com a informação correta, mesmo que isso possa causar náuseas em algum leitor mais desinformado sobre o tema. Os fatos expostos por ela demonstram estar embasados em uma criteriosa pesquisa de campo.


O livro é organizado de forma temática, o que permite que possamos ler os capítulos de forma aleatória. Essa versão que resenho conta com uma excelente exposição de fotos dos pacientes do Colônia na época em que o hospital ainda funcionava, muitas delas mostram detalhes perturbadores em páginas inteiras e não é raro associarmos os corpos nus e raquíticos de alguns pacientes com as fotos mais conhecidas dos prisioneiros de Auschwitz.


O livro é respaldado por uma ampla pesquisa jornalística, além de uma riquíssima coletânea de depoimentos. Ex-pacientes e ex-funcionários enriquecem a obra com suas visões peculiares e divergentes sobre o que aconteceu dentro dos muros do Colônia, o que nos ajuda a entender – não sem ficarmos aterrorizados com a capacidade humana de criar mecanismos para matar pessoas diferentes – o sistema que desumanizava pessoas e naturalizava suas mortes.


Holocausto Brasileiro revelou verdades perturbadoras sobre um dos maiores campos de concentração do Brasil que funcionava sob a fachada de um hospital psiquiátrico que encarcerava desde mendigos sem perspectiva de futuro até filhas de coronéis que engravidavam na adolescência e eram coercivamente internadas no Colônia para terem suas existências apagadas da memória de suas famílias.


Daniela Arbex

O livro de Daniela Arbex gerou várias discussões no debate público e foi usado como base em um documentário de 2026, produzido pela HBO com o mesmo nome. O mais assustador de tudo isso é notar que dez anos após a publicação desse livro e dos relatos de várias melhoras no atendimento psiquiátrico no país, o risco de retrocesso está sempre à espreita. Segundo matéria do portal O Globo, de fevereiro de 2023, os




Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) não têm nenhum aumento de recursos financeiros desde 2011”,

Em contrapartida, uma portaria do Ministério da Saúde de 2017 aumentou o investimento nos hospitais psiquiátricos ainda em atividade, o que evidencia uma escolha política que vai de encontro às prerrogativas da reforma que vinha em curso. Recomendo esse livro para todos que queiram se informar sobre um pedaço incomodo da história contemporânea brasileira e tenham estomago para tal.







 



Ficha técnica

Título: Holocausto Brasileiro

Autora: Daniela Arbex

Editora: Intrínseca

Ano de Lançamento: 2013

Gênero: Jornalístico, reportagem

277 páginas

 











Fontes:

BANDEIRA, Karoline. O Globo. Criticados por especialistas e alvo de denúncias, hospitais psiquiátricos ainda têm 13 mil leitos no país. O Globo, São Paulo, 12 de fev. de 2023. Disponível em:< https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2023/02/criticados-por-especialistas-e-alvo-de-denuncias-hospitais-psiquiatricos-ainda-tem-13-mil-leitos-no-pais.ghtml>. Acesso em: 14 de mar. de 2024




André Stanley é historiador, professor de Inglês, espanhol e português para estrangeiros. Autor do livro "O Cadáver", editor do Blog do André Stanley. Possui um canal no Youtube onde fala de literatura, design e outros temas. Colaborador do site Whiplash, especializado em Heavy Metal. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

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