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Crianças de Asperger – as origens do autismo na Viena nazista

Atualizado: 2 de jan.




Antes de mais nada, gostaria de alertar que o conteúdo deste livro abordará temas sensíveis relacionados a alguns desafios humanos, que a História, vez ou outra, nos impele a refletir sobre, incluindo o assassinato de crianças. Se você é sensível a esses assuntos, recomendo que não laia esse livro, ou que o leia de forma cautelosa, sem se aprofundar quando se deparar com temas mais controversos.




Edith Sheffer

Neste livro, a Historiadora Edith Sheffer traz à tona verdades muito inconvenientes sobre o psiquiatra austríaco Hans Asperger, aquele cujo nome ficou associado a síndrome que ele descreveu em 1944. Quem nunca ouviu falar da Síndrome de Asperger? Este livro foi talvez o primeiro a apontar, com um número robusto de evidências documentais, o envolvimento do médico austríaco com o programa de eugenia do regime nazista.



Segundo a autora:


O objetivo desta história não é acusar nenhuma figura particular nem minar a discussão positiva sobre neurodiversidade inspirada pela obra de Asperger. É antes uma advertência a serviço da neurodiversidade, revelando a extensão na qual diagnósticos podem ser modelados por forças sociais e políticas e quão difíceis de perceber e combater essas forças podem ser. (SHEFFER, 2023, p.13)

Hans Asperger e as crianças que tratava

Asperger descreveu pela primeira vez o termo “psicopatia autista” em um artigo que ele escreveu em 1944, ou seja, em um país tomado pelos nazistas. E quando falamos de regime nazista, devemos lembrar que os alemães invadiram a Áustria em 1938, foi o primeiro país tomado por Hitler em seu plano de dominação da Europa. Os alemães não precisaram dar um único tiro. Os austríacos receberam os soldados alemães como heróis. Sem oferecer resistência a Áustria foi simplesmente anexada à Alemanha no que ficou conhecido como “Anschluss”.



Milhares de austríacos ouvindo Hitler falar na Heldenplatz, em Viena, após a anexação do país.


Ou seja, antes mesmo da anexação, o nazismo já era abertamente apoiado por grande parte dos austríacos, inclusive o próprio Asperger.


Segundo a autora:


Asperger tinha sólidas credenciais de extrema direita e era membro de várias organizações antiliberais, antissocialistas, antimodernistas e antissemitas. (SHEFFER, 2023, p.43)

e

Como muitos médicos na época, Asperger era autoproclamado eugenista. (SHEFFER, 2023, p.43)

Durante a ditadura nazista, Viena se tornou literalmente um centro de assassinatos em massa perpetrados por médicos e enfermeiras nas clínicas e hospitais dirigidos por simpatizantes do regime assassino de Adolf Hitler.


Dentre essas instituições, havia um hospital em particular, que desempenhou um papel central no morticínio de crianças - e adultos - seguindo a cartilha nazista de “higienização racial”. Trata-se do hospital infantil de Spiegelgrund onde centenas de crianças foram assassinadas por uma infinidade de motivos que iam de alguma deficiência física que a impediria de se tornar um trabalhador para o regime, até crianças com problemas de comportamento que seriam um gasto para o Estado se fossem mantidas institucionalizadas. No entanto, os laudos das autópsias sempre descreviam as mortes como pneumonia. Era um padrão daquele sistema de assassinatos.


Hospital psiquiátrico Spiegelgrund em Viena - Áustria. Onde centenas de crianças foram assassinadas pelo regime nazista


O capítulo 8 – chamado “A vida cotidiana da morte” está particularmente repleto de testemunhos dos dias de pleno terror vividos em Spiegelgrund, principalmente no chamado pavilhão 15, que era chamado de pavilhão da morte, pois as crianças que para lá iam, em sua maioria, jamais saíam de lá vivas. A autora diz que:


Spiegelgrund era o segundo maior centro de assassinatos do Reich; apresentava a mais alta taxa de mortes e treinava equipes de assassinato para outras “alas de crianças especiais”. (SHEFFER, 2023, p. 169)

Os familiares das crianças, em muitos casos, eram coniventes com os assassinatos dos filhos, pois sentiam que tinham se livrado de um peso, más há vários relatos de familiares que não aceitavam a internação dos filhos ou eram tão ingênuos que não tinham noção de que aquela internação poderia significar a morte da criança.


Vou reproduzir aqui uma das passagens que nos dá uma boa ideia de como era receber um diagnóstico médico nesse regime assassino.


A autora conta a história de Anne Luise, uma garota alemã de 9 anos enviada para Spiegelgrund no dia de Natal de 1943 por padecer de algum tipo de paralisia nas pernas. A mãe da garota desesperada por estar tão longe da filha só podia se comunicar por meio de cartas. E essas cartas sobreviveram e foram analisadas por Sheffer. Assim ela escreveu:


“minha querida Annelise, meus pensamentos estão sempre com você, mamãe vai vê-la em breve, o que será uma grande alegria [...] Agora, minha querida Annelise, continue a se comportar e ser muito boazinha até que possamos nos ver novamente; os melhores votos do fundo do meu coração.” (SHEFFER, 2023, p. 182)

Segundo a autora:


os médicos de Spiegelgrund condenaram a menina devido à paralisia espasmódica nos quatro membros. Embora a dra. Marianne Türk tenha observado que “as habilidades mentais da criança são surpreendentemente boas” e que ela era “extremamente inquisitiva, fazendo todo tipo de pergunta aa qualquer um que esteja por perto”, o dr. Ernst Illing enviou seu arquivo a Berlim solicitando permissão para matá-la. Sua condição física disse Illing, a tornava “incapaz de educação ou treinamento prático e exclui mesmo a mais remota possibilidade de que possa trabalhar no futuro”. Anne Luise morreu em Spiegelgrund no início da manhã de 13 de janeiro de 1944, com pneumonia como causa da morte.” (SHEFFER, 2023, pp. 182, 183)

Esse é só um exemplo de como esse sistema estatal de assassinatos em massa de crianças funcionava.


Esse era o sistema no qual Hans Asperger trabalhava. Aliás muitos de seus diagnósticos condenaram crianças a morte em Spiegelgrund. A autora apresenta várias documentações de crianças que foram enviadas a Spiegelgrund pela clínica que Asperger dirigia.


Edith Sheffer defende que o diagnóstico criado por Asperger de “Psicopatia autista” foi resultado de sua adequação ao regime nazista que tomava conta de seu país naquele momento.




Não confundir o termo “psicopatia” usado por Asperger em seu artigo com o que conhecemos como psicopatia hoje em dia. Segundo Edith Sheffer, a definição de psicopatia usada na psiquiatria do Terceiro Reich era mais ampla e “designava uma categoria de jovens associais que poderiam ser institucionalizados ou encarcerados”. Ou seja, qualquer jovem que tinha algum tipo de comportamento que necessitava ser retirado da sociedade.




Segundo a autora:

 

“Sem a invasão nazista, Asperger poderia jamais ter concebido a psicopatia autista.” (SHEFFER, 2023, p. 76)
“Asperger só apresentou sua definição de psicopatia autista quando o nazismo passou a controlar seu mundo – e, quando o fez, ele a definiu em termos da retórica e dos valores do Reich” (SHEFFER, 2023, p. 79)

Para chegar a essa conclusão a autora apresenta uma série de evidências de que o artigo escrito por Asperger estabeleceu o diagnóstico de “psicopatia autista” para separar essas crianças, que não se adequavam ao espírito de comunidade buscado pelo regime nazista, das crianças que eram, a seu ver, saudáveis por serem mais sociáveis. Para ele essas crianças eram associais incuráveis, portanto, não teriam chance de ser um dia parte da volk nazista.


Esse é apenas um dos pontos que Edith Sheffer elucida em sua obra. No decorrer da narrativa ela também discorre sobre as questões de gêneros envolvendo os diagnósticos autistas de Asperger. Para a autora Asperger nunca foi capaz de diagnosticar uma autista do sexo feminino por conta de seu total compromisso com a cartilha psiquiátrica de seu tempo. Mas ela, não somente apresenta a hipótese como também, mostra os vieses de Asperger em relação a sua conduta direcionada as meninas e aos meninos. Para Asperger.


“A personalidade autista é uma variedade extrema da inteligência masculina” e mesmo do caráter masculino”. (SHEFFER, 2023, p. 160) 

Talvez Asperger nuca teve consciência de que estava negligenciando o sistema educacional de sua época que empurrava as meninas a uma educação mais restrita e não raramente opressiva em comparação com os meninos.


Edith Sheffer também se aventura em analisar as condenações sofridas por alguns desses carrascos nazistas depois da queda do terceiro Reich. E é notório que ela lamenta que Asperger não tenha sofrido as punições legais as quais sues colegas foram submetidos.


Estilo de Escrita:


A autora desenvolve um estilo de escrita objetivo demonstrando ao leitor os horrores daqueles eventos de forma crua e sem sentimentalismo, como um bom livro de História deve ser. No entanto, ela não esconde sua indignação em relação às suas descobertas. Vez ou outra, ela se utiliza de adjetivações como “regime assassino”, “o mentor homicida de Asperger” ou “relatos de partir o coração”. O que pode tornar o texto mais enviesado, ao mesmo tempo que o torna mais emocional e humano.


Um dos pontos fortes de seu texto é seu compromisso com a evidencia material. Todos os pontos defendidos pela autora e que possam ser contraditórios são fundamentados com dados documentais produzidos e arquivados pelas próprias instituições. O livro tem uma linguagem acadêmica e foi escrito pensando nesse público, no entanto, há uma notória capacidade da autora em criar elementos de storytelling para envolver um eventual leitor leigo que se interesse pela obra. Podemos notar essa capacidade principalmente nas descrições das memórias dos sobreviventes e dos familiares que foram entrevistados em diversas oportunidades após a queda do Reich.



A tradução:


A tradução de Alessandra Bonrruquer é excelente e, digo mais, há aspectos linguísticos que são analisadas pela autora que foram muito bem expostos pela tradutora, por isso vemos um monte de palavras em alemão que simplesmente não são plenamente traduzíveis para o inglês, que é a língua da autora, e nem mesmo para o português. Por exemplo, o termo Gemüt, que é de extrema importância para entender os artigos científicos escritos por Asperger durante o domínio nazista da Áustria, poderia simplesmente ser traduzido como a "natureza do indivíduo" ou "carácter", más nenhum desses termos cabe no contexto em que foram usados durante o regime nazista, então a opção da autora e da tradutora foi manter o termo original em alemão, outro termo muito usado é volk que não pode ser simplesmente traduzido como “povo” pois a compreensão de povo para os nazistas era muito distinta da que usamos hoje de forma genérica.

 

Enfim. Para quem e por que recomendo esse livro? Recomendo o livro “As Crianças de Asperger: As origens do autismo na Viena nazista” a todos que se interessam pelo tema autismo, assim como aqueles que se interessam por História de uma forma geral, afinal é uma excelente amostra de como se deve fazer História nos dias de hoje. Estabelecendo métodos e confrontando documentos com a tradição vigente. A obra oferece uma análise criteriosa sobre a construção de um diagnóstico e como esse diagnóstico, que por si só é efetuado por uma figura autoritária – o médico – é um espelho da sociedade e do momento histórico que o produziu e como um diagnóstico pode condenar uma pessoa socialmente.





Ficha técnica 

Título: Crianças de Asperger – as origens do autismo na Viena nazista

Título original: Asperger's Children: The Origins of Autism in Nazi Vienna

Autora: Edith Sheffer

Editora: Record

Tradução de Alessandra Bonrruquer

Ano de Lançamento: 2018

Lançado no Brasil: 2018

Gênero: História/ Não ficção

320 páginas



Fontes:



André Stanley é historiador, professor de Inglês, espanhol e português para estrangeiros. Autor do livro "O Cadáver", editor do Blog do André Stanley. Possui um canal no Youtube onde fala de literatura, design e outros temas. Colaborador do site Whiplash, especializado em Heavy Metal. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

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