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Camille Claudel – Criação e Loucura – Liliana Liviano Wahba

Atualizado: 22 de jan.




Neste Livro, a psicóloga Liliana Liviano Wahba busca criar uma psicobiografia da escultora francesa Camille Claudel. A autora mergulha profundamente no processo de criação de Camille, assim como suas tendências destrutivas, usando como fontes primordiais as correspondências da artista enquanto se encontrava enclausurada em um manicômio em Paris.


O livro faz uma análise da vida e da obra de Camille Claudel desde sua infância numa região nos arredores de Paris no final do século XIV, passando pelo seu conturbado relacionamento com o famoso escultor Auguste Rodin até sua internação em uma instituição para loucos de onde ela nunca mais saiu.


La petite châtelaine de Camille Claudel

As correspondências de Camille com seu irmão e com a mãe, evidenciavam um apagamento de sua força criativa na medida em que ela se enclausurava cada vez mais em um tipo de paranoia delirante. Era evidente que Camille vinha se tornando uma artista interrompida. Interrompida pelo abandono da classe artística com quem outrora se relacionava e depois pelo abandono da família, que a via como um fardo.


Louis Prosper Claudel, seu pai, que sempre a apoiou em suas escolhas e enquanto vivo a ajudou se manter financeiramente em seu estúdio, morreu em 1913. Neste mesmo ano Camille Claudel foi internada, quando já contava com 49 anos. Sem a proteção do pai, sua mãe, com quem sempre teve uma relação conturbada, e seu irmão mais novo, Paul Claudel – que viria se tornar um escritor conhecido no universo católico – decidem internar Camille em um asilo de alienados e com o passar dos anos, mesmo com laudos médicos positivos e até mesmo laudos requisitando a saída de Camille para uma vivência em família, eles nunca nem mesmo cogitaram retirá-la da internação. Camille Claudel morreu em 19 de outubro de 1943 abandonada em um manicômio.


A autora adota uma abordagem analítica por meio das obras e da escrita de Camille, evidenciando sua veia junguiana. Ela faz interpretações muito interessantes sobre a simbologia contida em suas esculturas trazendo à tona elementos como a sensibilidade, a feminilidade, a sexualidade, o desejo amoroso, assim como sua tristeza e sua busca pelo belo.


A forma como a autora explora a relação da figura de Rodin com a eminente perda de controle emocional de Camille é permeada por explicações psicológicas em uma tentativa de diagnóstico do quadro apresentado pela artista. Para evitar um diagnóstico anacrônico a autora descreve clinicamente os sintomas apresentados por Camille. Assim ela diz:


Assim ela diz:


“O quadro clínico de Camille Claudel foi corretamente diagnosticado como psicose paranoide. A psicose paranoide ou paranoia, pela definição psiquiátrica, é caracterizada pelo delírio dito sistematizado, pois se desenvolve na ordem e na clareza”.

Ou seja, para a autora o diagnóstico feito a época era coerente com o que ainda o quadro clínico que até hoje chamamos de paranoia, onde a pessoa tem uma fixação delirante tão marcante que é impossível lhe mostrar sua incoerência com a realidade, pois tudo aquilo faz muito sentido para sua estrutura psíquica enferma.


O livro é dividido em quatro partes, sendo que na primeira há uma exposição sobre a vida e a obra de Camille Claudel. Na segunda parte temos uma leitura analítica de várias cartas enviadas e recebidas por Camille no asilo. Na terceira parte a autora analisa a simbologia por trás das principais obras da escultura e mostra seu declínio em direção a loucura e ao fim temos em epílogo que busca entender as causas da loucura de Camille.


A obra contém um bom referencial teórico dando respaldo a sua abordagem psicanalítica. A autora se baseou também nas análises diagnosticas dos médicos do manicômio. Como anexo o livro ainda traz fotos das principais esculturas de Camille e ela ainda se aventura na construção fictícia de uma entrevista com Rodin sobre o que o grande escultor teria a dizer sobre sua jovem amante.


O livro destaca-se pela profundidade da pesquisa e a clareza com que os resultados são expostos ao público leigo. A autora consegue dar ares de leitura de entretenimento para uma pesquisa de caráter acadêmico. No entanto, o livro não pretende ser uma obra completa, sobre essa personagem complexa que foi Camille Claudel, até mesmo por conta de sua extensão – tem apenas 177 páginas, mas é de se estranhar que seja até hoje, quase trinta anos depois de seu lançamento, uma das poucas obras brasileiras dedicados a vida e a obra de Camille Claudel.


Para quem e por quê?


Em síntese, "Camille Claudel: Criação e loucura" é uma leitura imprescindível para quem se interessa por biografias de mulheres fortes que exigiram seu lugar na sociedade mesmo sob o julgo de uma estrutura patriarcal. A autora Liliana Liviano Wahba oferece uma perspectiva psicanalítica e inovadora sobre a vida e a obra de Camille Claudel, sustentada por uma pesquisa sólida e uma narrativa envolvente. Recomendo este livro também a todos que se interessam pela relação entre arte e loucura.

 




Ficha técnica

Título: Camille Claudel: Criação e Loucura

Autora: Liliana Liviano Wahba

Editora: Rosa dos ventos

Ano de Lançamento: 1996

Gênero: Biografia/ Não ficção/ História da arte

177 páginas

 






Fontes:



André Stanley é historiador, professor de Inglês, espanhol e português para estrangeiros. Autor do livro "O Cadáver", editor do Blog do André Stanley. Possui um canal no Youtube onde fala de literatura, design e outros temas. Colaborador do site Whiplash, especializado em Heavy Metal. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

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